Tuítes recentes:
Olhares, impressões e aventuras do jornalista Marcel Verrumo, no Curso Abril 2012.
Na primeira semana de Unesp, recebi uma revista. Era uma Plug, a revista do Curso Abril de Jornalismo. Calouro cru, não sabia o que era o Curso Abril. O professor respondeu que era o programa de treinamento editorial da Abril. A revista era bonita, colorida e as pessoas que estavam em suas páginas tinham ares de comercial de Margarina, ares de gente feliz.
Cinco anos depois, estaria pulando de alegria ao ver meu nome na lista, ansioso pela palestra do dia seguinte, nervoso quando cairiam todas as ideias na metade do projeto e quando um olharia para a cara do outro e perguntaria: “e agora?” Estaria cansado pelas quatorze, quinze, dezesseis horas seguidas na redação. Estaria com o coração batendo mais forte quando uma música de game começaria a tocar e seria dada a largada para nossa apresentação. Depois de um tempo, estaria mais leve e, depois de algumas cervejas, nas nuvens.
Hoje, se pudesse conversar com o professor que, em 2007, me entregou a Plug, lhe diria 3 coisas:
Primeira – O Curso Abril é mais que o programa de treinamento editorial da Abril. É um Curso para se fazer contatos profissionais, sim. Mas também para se fazer amigos, para crescer pessoalmente, para descobrir nossos limites quando testados AO EXTREMO.
Segunda - Quando entregar a Plug, faça com que seus alunos percebam o que eu percebi há 5 anos: suas páginas são coloridas e contêm gente com ares de Margarina e essas pessoas foram, sim, gente feliz nesses 38 dias.
Terceira (e última) – Obrigado.
Seguindo os posts de outros cajianos, compartilho o texto que me trouxe ao Curso Abril. A pergunta era a clássica “Quem é você e por que você escolheu o jornalismo como profissão?”. Minha resposta…
Entre o caipira e o cientista
Eis a cabeceira da minha cama: dois livros, um mp3 e um celular. As páginas amarelas de “Angústia”, de Graciliano Ramos, dividem espaço com “A alma encantadora das ruas”, do repórter-flâneur João do Rio. Ao lado dos livros, o aparelho digital indica que de Mercedes Sosa é a última música ouvida. O celular marca 2h43 e irá despertar 7h51. Daí você me pergunta: “o que isso tem a ver com as duas perguntas que você precisa responder neste texto?” Eu diria que “muito”, afinal, eu sou um pouco dos livros que leio, do folclore que ouço, das poucas horas que durmo. Sou resultado da minha cabeceira do presente e de muitas cabeceiras do passado.
Sou natural de Dourado (SP), cidade de 8 mil habitantes onde o R é larrrgamente pronunciado, os jovens vão flertar na praça e as pernas caminham a passos lentos. Pelas ruas tranquilas dessa cidade, cresci sonhando ser de tudo um pouco: o pintor dos becos onde os adolescentes tremem ao dar o primeiro selinho, o médico que faz o parto de toda a cidade, o político que vira nome de rua quando morre. Sem habilidade com o pincel e o bisturi e sem vocação para ser a Rua Marcel Verrumo, me rendi ao Jornalismo.
Para não criar falsas expectativas, que fique claro: não tenho dotes musicais, não falo sânscrito ou esperanto e sempre pisco em fotos que vão para álbuns da família. Mas se não tenho intimidade com as notas musicais, me familiarizo com a prosa fluente e, como poucos, sei usar ponto-e-vírgula; não falo idiomas mortos, mas estudo inglês e, após estudar Comunicação/Jornalismo na Argentina, ensinei espanhol; na hora da foto, não pisco no momento certo, mas fotografo a cena precisa.
No entanto, não se anime, tenho um último alerta: sou escorpiano. Mas também não me tema, a “Alfa” apenas diria que sou “um homem determinado”. Aliás, não corra de mim: não sou o psicopata da capa da “Superinteressante”, nem a bactéria superpoderosa da “Mundo Estranho” ou um ídolo teen da “Capricho”. Sou o que a “Bravo!” definiria como inquieto: bato de frente, desconfio e dificilmente me contento.
Busco experiências que me tragam a surpresa. “Do alto” dos meus 21 anos, nos mergulhos verticais encontrei esses momentos. Nos mergulhos literários sobre obras de jornalistas-escritores, nos mergulhos com um mochilão nas costas em busca das cores da América do Sul, nos mergulhos na escrita de um livro-reportagem sobre a Guerra das Malvinas. Embora em muitos mergulhos eu possa me afogar, há de se mergulhar para se surpreender. E eu quero a surpresa. A surpresa de navegar pelo bom texto jornalístico, de voltar de Machu Picchu de carona em um caminhão de legumes, de descobrir a História de um país a partir de entrevistas realizadas com seus protagonistas.
Penso que o jornalista tem muito do caipira com que convivi quando criança em Dourado e do cientista que encontrei na Universidade. Do caipira, traz o conhecimento dos “causos” ao seu redor, a facilidade para a boa prosa e o poder de encantar na hora de contar histórias. Do cientista, aproxima-se pela interpretação contextualizada da realidade, pela precisão da pergunta e pela pretensão ao definir-se objetivo.
Vestibulando caipira de 17 anos, escolhi ser jornalista pela paixão por contar histórias e pela curiosidade em descobrir novos “causos”. Passados quase cinco anos e à beira de me graduar em Jornalismo, reafirmo minha escolha pela profissão por acreditar que, com a curiosidade do caipira e a técnica do cientista, é possível fazer da pauta o caminho para encontrar bons personagens; da entrevista, o diálogo para desbravar novas realidades; da notícia, a matéria-prima para melhorar a qualidade de vida do meu leitor.
E esteja certo: afora reunir as características que separam o caipira e o cientista, carrego o traço que os une – o típico brilho nos olhos de quem, na vereda da rua ou no laboratório científico da redação, faz o que ama.
Oremos…
João Moreira Salles, durante o Curso Abril 2012
Foto: Nani Rodrigues
As mãos desenhavam suas crenças a respeito do que é o documentário; as palavras, ordenadamente pausadas, davam o tom do que era ser jornalista. Foi assim, convidativo, que o publisher da Piauí e documentarista João Moreira Salles passou pelo Curso Abril. Passou rapidamente, deixando um inevitável “já?!”, mas deixou muito. De tudo, compartilho dois breves pensamentos.
Jornalismo versus documentário
“É difícil estabelecer um limite entre o Jornalismo e o Documentário, diferenciar onde termina um e começa o outro. Mas o documentário não está preocupado em transmitir uma informação, não está interessado na verdade. Sua missão é transmitir determinada experiência, determinada versão da realidade.”
Os documentaristas de “Santiago”
“Santiago narra um processo de autoconhecimento. É um filme que eu precisava fazer, registra um período de transformação e termina com um documentarista em crise, que não acreditava em nada. Estava com 31 anos quando gravei o filme e tinha muitas das características que hoje critico: era o repórter que ia com perguntas prontas para fazer, não deixava o personagem contar sua história. Anos depois, quando editei, estava mais maduro, minhas crenças sobre documentário já estavam mais claras. O filme narra esse processo de transformação. É uma obra da qual não me arrependo de ter feito.”
Grupo Info trabalhando duro em pleno domingo!
“Zico, eu tenho um sonho. Meu sonho é ser VJ na MTV. Como faço para atingí-lo?”
Cleber Facchi, o Martin Luther King dos trópicos
O currículo era inspirador; o bigode, bem cuidado. Quando o britânico Ben Hammersley entrou no auditório, a plateia, cheia, mirou o editor especial da Wired UK, que já passou pelo The Guardian, The Times e BBC. A curiosidade por saber os conselhos e as experiências que se escondiam por trás daquele que exibia seu bigode à Salvador Dali.
Ben falou pouco de tecnologia, não se deteve na Wired. Foi além. Falou de jornalismo, da essência de ser jornalista. Em tempos de Twitter e Google, Ben lembrou os cajianos que o bom jornalismo sai da rua, de histórias garimpadas no cotidiano, de solas de sapatos gastas atrás de bons personagens.
Na hora de perguntar, a lei de Ben parece ser: “Ask why all the time.” Foi a dica principal do jornalista: saiam da zona de conforto, questionem-se sobre tudo o que está estabelecido, busquem as raízes da histórias, as razões, as mentiras.
Era como se ele quisesse aconselhar: saiam para a rua e questionem. Não há nada que não possa ser vítima de um “why?”.